{"id":405,"date":"2022-03-23T17:36:56","date_gmt":"2022-03-23T20:36:56","guid":{"rendered":"https:\/\/sanvicente.com.br\/blog\/?p=405"},"modified":"2022-03-23T17:36:56","modified_gmt":"2022-03-23T20:36:56","slug":"arquitetura-silenciosa-respostas-arquitetonicas-ao-caos-do-mundo-contemporaneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sanvicente.com.br\/blog\/arquitetura-silenciosa-respostas-arquitetonicas-ao-caos-do-mundo-contemporaneo\/","title":{"rendered":"Arquitetura Sil\u00eanciosa: respostas arquitet\u00f4nicas ao caos do mundo contempor\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"text\">O mundo atual \u00e9 percebido por muitos como algo ca\u00f3tico, desordenado e mesmo hostil. Sensa\u00e7\u00f5es de medo, desorienta\u00e7\u00e3o e vazio parecem ser comuns a todos em algum momento das nossas vidas. Viol\u00eancia urbana, crises pol\u00edticas e econ\u00f4micas cr\u00f4nicas e consequente inseguran\u00e7a financeira e profissional s\u00e3o causas conhecidas de todos. Pode-se perceber tamb\u00e9m que nossa \u00e9 vida \u00e9 cada vez mais influenciada, se n\u00e3o dominada, por valores derivados de processos sobre os quais n\u00e3o temos nenhum controle. Um deles \u00e9 a chamada ideologia do mercado, a partir da qual h\u00e1 uma tend\u00eancia quase irresist\u00edvel a tratar todos os aspectos da vida como objetos de consumo, muito bem embalados em imagens sem subst\u00e2ncia.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"text\">N\u00e3o menos importante \u00e9 a desorienta\u00e7\u00e3o causada por cidades organizadas de maneira confusa, sem hierarquia clara, povoada por uma esmagadora maioria de edif\u00edcios equivocados na sua concep\u00e7\u00e3o, cuja aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 monumentalidade e notoriedade s\u00f3 agrava a sensa\u00e7\u00e3o de se estar em nenhum lugar.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"text\">\u00c9 claro que a maioria de n\u00f3s gostaria que o mundo fosse diferente, mas a arquitetura faz parte do mundo real, com todos os seus problemas, e sua capacidade de ajudar-nos a enfrent\u00e1-los, embora limitada, n\u00e3o \u00e9 desprez\u00edvel. Este texto se prop\u00f5e a apontar algumas maneiras em que a arquitetura e o urbanismo t\u00eam respondido ao caos contempor\u00e2neo.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"text\">Do ponto de vista urban\u00edstico, uma caracter\u00edstica marcante das \u00faltimas d\u00e9cadas tem sido a acelerada transfer\u00eancia de atividades normalmente realizadas em espa\u00e7os abertos da cidade para o interior dos edif\u00edcios: das pra\u00e7as para os\u00a0<i>shoppings<\/i>\u00a0e centros culturais, ou espa\u00e7os similares. O espa\u00e7o aberto, por conseq\u00fc\u00eancia, perde seu valor e se restringe a facilitar a circula\u00e7\u00e3o de pessoas e mercadorias. O espa\u00e7o p\u00fablico deixou de ser primordialmente um local de encontro, cora\u00e7\u00e3o da vida social e pol\u00edtica, e passa a ser, na maioria dos casos, diretamente ligado ao consumo, \u00e0 comida e \u00e0 divers\u00e3o paga, em lugares segregados, monitorados e controlados; local onde todos se sentem seguros e essa seguran\u00e7a \u00e9 esperada. O pr\u00f3prio termo espa\u00e7o p\u00fablico perde significado nestas condi\u00e7\u00f5es, passando talvez a ser mais adequado falar-se em espa\u00e7o coletivo.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"text\">Essa interioriza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico coincide com a prolifera\u00e7\u00e3o dos chamados \u201cn\u00e3o-lugares\u201d: aqueles pelos quais ningu\u00e9m sente um apego particular e que n\u00e3o funcionam como pontos de encontro \u00e0 maneira tradicional; s\u00e3o definidos pela super-abund\u00e2ncia e o excesso &#8211;espa\u00e7os relacionados com o transporte r\u00e1pido, o consumo e o \u00f3cio (centros comerciais, supermercados, hot\u00e9is, aeroportos, etc.). Os museus talvez sejam uma exce\u00e7\u00e3o entre os novos lugares do final do s\u00e9culo XX, pois se tornam motivo de orgulho para as comunidades que os constroem e em geral sua arquitetura \u00e9 de qualidade superior. Mas mesmo nesses templos da cultura se sente a penetra\u00e7\u00e3o dos valores consumistas da \u00e9poca, no sentido em que muitos museus t\u00eam se tornado verdadeiros centros comerciais e gastron\u00f4micos.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"text\">No que se refere \u00e0s edifica\u00e7\u00f5es em que vivemos e trabalhamos, a arquitetura tem oferecido diferentes respostas ao caos da vida contempor\u00e2nea. Uma delas \u00e9 a via nost\u00e1lgica ou cenogr\u00e1fica, pela qual se constr\u00f3i edifica\u00e7\u00f5es diretamente inspiradas na arquitetura do passado, fazendo quest\u00e3o de que essa fonte de inspira\u00e7\u00e3o seja imediatamente percept\u00edvel. A id\u00e9ia por tr\u00e1s dessa atitude parece ser a de criar um ambiente reconfortante por meio de imagens familiares. Essa pr\u00e1tica j\u00e1 seria anacr\u00f4nica e irrelevante mesmo que o passado evocado por essas arquiteturas fosse ligado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o local, mas em geral o que acontece \u00e9 uma apropria\u00e7\u00e3o do passado de outras culturas. A conseq\u00fc\u00eancia \u00e9 uma \u201cdisneyfica\u00e7\u00e3o\u201d do mundo, onde tudo \u00e9 falso e culturalmente irrelevante, al\u00e9m de n\u00e3o representar qualquer atitude positiva perante o caos exterior. Os cen\u00e1rios em cor pastel podem at\u00e9 proporcionar algum al\u00edvio tempor\u00e1rio, mas como qualquer droga, s\u00f3 constituem uma fuga inconseq\u00fcente. Mas o pior desta atitude \u00e9 que, sendo regressiva e antimoderna, infantiliza e corrompe os usu\u00e1rios, pois n\u00e3o os educa e os mant\u00e9m num estado primitivo de cultura visual.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"text\">Criando objetos que pretendem atender de modo literal a uma suposta prefer\u00eancia do cliente, o arquiteto deixa de cumprir o seu papel de interpretar e qualificar as necessidades sociais e impede o desenvolvimento de uma rela\u00e7\u00e3o ativa entre usu\u00e1rio e arquitetura. Uma das principais caracter\u00edsticas da arte moderna, da qual a arquitetura \u00e9 um caso espec\u00edfico, \u00e9 a de apresentar uma ordem que lhe \u00e9 pr\u00f3pria, n\u00e3o dependente de nenhum sistema externo a ela, e isso significa que a participa\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio \u00e9 fundamental para o seu completamento. A arquitetura cenogr\u00e1fica retira do usu\u00e1rio a possibilidade de engajamento ativo com a obra de arte, e o torna um receptor passivo de imagens pasteurizadas.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"text\">A via cenogr\u00e1fica \u00e9 origin\u00e1ria da Am\u00e9rica do Norte, mas sua penetra\u00e7\u00e3o pode ser sentida em qualquer grande cidade do nosso continente. A grande maioria dos empreendimentos residenciais recentes nas capitais brasileiras segue algum estilo hist\u00f3rico (mal) adaptado. \u00c9 comum que a propaganda desses empreendimentos fale em \u2018estilo californiano\u2019, \u2018arquitetura toscana\u2019, etc. Todas as cidades brasileiras s\u00e3o afetadas por esse fen\u00f4meno, mas em nenhum lugar ele \u00e9 mais percept\u00edvel, na extens\u00e3o da sua vulgaridade, que na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, verdadeiro circo dos horrores da arquitetura contempor\u00e2nea. A falta de cultura visual da maioria das pessoas que pode contratar um arquiteto em nosso pa\u00eds, somado a um complexo de inferioridade perante o poder econ\u00f4mico das pot\u00eancias do Primeiro Mundo, faz dos clientes presa f\u00e1cil de profissionais que n\u00e3o entendem o papel cultural da arquitetura, e a atrelam ao mundo da moda e da publicidade.<\/span><\/p>\n<p>Gostou? Texto escrito por Edson da Cunha Mahfuz, arquiteto, professor de projetos da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Leia mais em vitruvius.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo atual \u00e9 percebido por muitos como algo ca\u00f3tico, desordenado e mesmo hostil. Sensa\u00e7\u00f5es de medo, desorienta\u00e7\u00e3o e vazio parecem ser comuns a todos em algum momento das nossas vidas. Viol\u00eancia urbana, crises pol\u00edticas e econ\u00f4micas cr\u00f4nicas e consequente inseguran\u00e7a financeira e profissional s\u00e3o causas conhecidas de todos. 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